domingo, 21 de agosto de 2011

O Laço e o Culto

Título: O Laço e o Culto
É o espiritismo uma religião?

Autor: Krishnamurti de Carvalho Dias

Editora: Dicesp

Categoria: estudo

Edição: 1985 (leia aqui)

Proposta:
Desenvolver a questão do espiritismo ser ou não uma religião apontando os aspectos históricos e a posição de Kardec.

Formato:
O livro é dividido em mais ou menos 30 capítulos que podem ser lidos em aproximadamente 5 horas. No formato eletrônico (leia aqui) há alguns problemas de edição como a falta de um índice dos capítulos e letras trocadas ou ausentes.

Linguagem:
Linguagem simples e didática.

Avaliação:
É curioso como a questão religiosa no espiritismo se arrasta ao longo dos anos. Este livro foi publicado a quase 30 anos atrás e ainda está atual. E isto não se deve a falta de discussão, mas talvez da incapacidade de dialogar, sobretudo por se tratar de um tema que suscita paixões conforme bem demonstra o autor em seus primeiros capítulos.

Do ponto de vista conceitual este trabalho deveria ser uma referência para todos os que se debruçam sobre a questão. O autor desenvolve os principais conceitos baseando-se na etimologia das palavras e nos aspectos históricos que as envolvem.

A posição de Kardec sobre a questão é fundamentada sobretudo no discurso desenvolvido em suas obras. Didaticamente o autor demonstra que o discurso de Kardec era contrário a utilização da palavra religião para adjetivar o espiritismo. Por outro lado, a avaliação efetiva do trabalho de Kardec ser ou não religioso ficou em segundo plano.

A valorização excessiva dos conceitos das palavras ofuscou o valor que deveria ser dado ao que as pessoas enxergam no espiritismo. As palavras têm força sim e o entendimento de que Kardec não propunha uma nova religião poderia mudar substancialmente o cenário do movimento espírita brasileiro. Mas também não se pode desconsiderar o que de fato move as pessoas. Por exemplo, se os rituais são importantes para elas (mesmo que não consigam identificá-los como tal) então provavelmente vão continuar participando deles.

De toda a forma, este trabalho pode ser considerado um marco nas discussões sobre a questão religiosa no espiritismo. Suas ideias repercutem ainda hoje e só dificilmente são assimiladas por boa parcela dos espíritas. Mas, há ainda muito por avançar, sobretudo, na compreensão do que queremos, ser ou não ser uma religião.

Discussão:
Seguem abaixo algumas passagens:

Página 13 do capítulo Conceitos-chave:
Palavras estranhas ao caráter natural do espiritismo, como chakras, carma, aura, astral, etc. e que chegam até a ser conflitantes com o discurso doutrinário, a suscitarem confusões com pensamentos bem divergentes – foram postas em circulação com a maior desenvoltura, como se Kardec nunca tivesse dito nada a respeito.
A ponderação do autor é legítima embora o uso de palavras estranhas ao espiritismo não é por si só negativo. O problema, na verdade, está na confusão que se faz com as palavras, sejam elas estranhas ou não ao espiritismo.

Página 17 do capítulo Revelação:
Kardec não chama o espiritismo de “terceira revelação” no mesmo sentido religioso que essa palavra tem. Convém ler bem aquela matéria. Há dois sentidos para a palavra revelação. O que é místico, religioso, sagrado, o sentido teológico de revelação, primeiro. E há o sentido profano, laico, cientifico, tecnológico, no qual Kardec se enquadrou.
Humm... será!? O simples fato de chamá-la de terceira está necessariamente associado ao sentido religioso das duas primeiras revelações (a de Moisés e a de Jesus).

Página 27 do capítulo Materialismo:
O natural é pensar que Deus existe, sob qualquer uma de suas concepções; é pensar que temos uma alma, não somos só matéria bruta. Quando essa naturalidade é substituída pelas complicações, de fato maiores e mais difíceis, do pensamento negativista, é porque alguma coisa aconteceu.
Talvez o pensamento da não existência de Deus seja tão simples quanto ao da sua existência.

Página 41 do capítulo A Religião:
O espiritismo tem-se mostrado tímido, muito conservador e propenso a um alinhamento religioso, pois reconhece que o pensamento materialista é hedonista e conduz a situação de risco. Mas não há de ser adotando a postura religiosa que ajudará os necessitados de orientação, pois sexo é um reclamo vivo, atuante, permanente, uma força psicofisiológica que não pode ser tratada com preconceitos, querendo decisões autênticas, não discursos moralistas.
A conclusão parece acertada, mas uma das premissas, a de que o pensamento materialista é hedonista, é discutível.

Página 82 do capítulo A Posição de Kardec:
Este livro não foi escrito para os que estão firmemente convencidos de serem religiosos de uma religião chamada espiritismo, e a quem essa convicção é inabalável, sincera, bastante, da qual não estão dispostos a abrir mão. Foi escrito para os que, tendo lido as palavras claras e insofismáveis de Kardec – negando que espiritismo seja religião no sentido comum da palavra – se demoram entre perplexidades e dúvidas, sem saber que partido tomar, que solução dar ao impasse.
Talvez as pessoas não queiram seguir o discurso de Kardec.

Página 87 do capítulo Universalidade do Espiritismo:
Mas deve-se assumir que essa relação começa e acaba aí: é com a moral do Cristo, não a moral cristã, pois essa expressão significa a moral conciliar, dos teólogos cristãos, que foi elaborada em séculos de cristianismo, e com ela o espiritismo não tem a ver. Se fosse absolutamente cristão ou evangélico, o espiritismo ficaria confinado à área geográfica onde tais valores prevalecem, não teria universalidade. Teria vigência num hemisfério só, não noutro.
Humm... este argumento geográfico não testemunha a favor da universalidade no espiritismo.

Página 116 do capítulo Raízes da Controvérsia:
Todas as grandes reivindicações sociais estão presentes nos generosos
postulados doutrinários. Uma vez estabelecidos estes, no consenso popular, seria
fácil passar a limpo esse rascunho que ai está, todo garatujado pelo egoísmo e pela
ignorância; é necessário colocar o pensamento espirítico nas faculdades, na
universidade, que é o celeiro da inteligência, mas não como matéria religiosa, o que
ele não é, mas como uma acumulada de sabedoria, uma pilha de informação
edificante.
A grande questão aqui é como fazer esta penetração no ambiente acadêmico.

Página 129 do capítulo Conclusão:
A grande pergunta é: que importância tem saber disso ou não? Afeta alguma coisa às pessoas? É significativo isso? Ora, a mesma pergunta poderia ser feita a cerca de qualquer outra coisa deste mundo, inclusive sobre a própria idéia de Deus.
Acredito que ninguém negará o valor da informação e do conhecimento. Porém, as coisas possuem valores diferentes. O que é mais importante: saber se o espiritismo é religião ou saber se queremos que ele seja?

2 comentários:

  1. Vital, parabéns por mais essa análise! Como sempre, sua metodologia e precisão se mostraram ímpares. Um grande abraço!

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