segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Jesus Nazareno


Livro não espírita

Título: Jesus Nazareno

Autor: Huberto Rohden

Editora: Martin Claret

Categoria: evangélico

Edição: 2007

Proposta:
Descrever as passagens bíblicas de Jesus de Nazaré apresentando seus detalhes históricos e desenvolvendo os seus aspectos morais.

Formato:
Tamanho compacto, porém com mais de 400 páginas para serem lidas em mais de 15 horas. É dividido em três partes que representam três períodos da vida de Jesus. Cada parte é subdividida em vários pequenos capítulos que descrevem uma dada passagem de sua vida. Possui ainda uma pequena biografia do autor.

Linguagem:
Embora seja uma edição relativamente nova o texto foi escrito na década de 30 e, portanto, a linguagem está um pouco desatualizada. Algumas palavras são de pouco uso, sobretudo aquelas relacionadas ao contexto bíblico. Mas, ainda assim, o texto é bem elaborado e fácil de acompanhar.

Avaliação:
Embora o livro não seja espírita ele é normalmente vendido em livrarias e distribuidoras espíritas. Não há propriamente nenhum problema nisso, mas é interessante avaliar até que ponto os conceitos do livro mantém relação com os conceitos espíritas (veja a discussão abaixo).

A descrição das passagens da vida de Jesus é bem feita porque traz elementos interessantes e importantes para a sua compreensão. São mesmo pequenos detalhes, mas que fazem a diferença na hora de explicar e de entender certas passagens. Não sou um especialista no assunto, mas não me lembro de nenhuma passagem que tenha faltado nesta obra. Parece ser bem completa.

Em sua essência a interpretação das passagens e das lições de Jesus tem um viés católico, embora o autor tenha firmado algumas posições contra o interesse da Igreja Católica. Por exemplo, ele não aceita a interpretação da autoridade de Pedro e dos papas na Terra como representantes do "reino" de Jesus.

É possível ainda encontrar algumas semelhanças na interpretação das passagens do autor com a interpretação kardeciana. Porém, as diferenças são mais evidentes, sobretudo em relação aos conceitos principais como, por exemplo, a ressurreição.

Quando o autor se envereda por questões teológicas a argumentação começa a ficar um pouco confusa. Talvez seja necessário a leitura de alguma outra obra dele. Mas, de qualquer forma, compromete a leitura deixando o leitor distante, sem entender do que se trata.

Discussão:
Seguem abaixo algumas passagens:

Página 25 do capítulo Maria, a mãe:
Ambos [Mateus e Lucas] admitem a paternidade real, mas não material, de José. A concepção de Jesus foi realmente hominal, mas não animal, como a dos outros homens. Desta concepção hominal nasce, segundo Jesus, o "Filho do Homem", ao passo que da outra resulta o "Filho da mulher".
Esta passagem não é clara e talvez a intenção seja esta mesmo. Porém, é bem diferente da interpretação kardeciana de que Jesus nasceu como qualquer um de nós.

Página 74 do capítulo "Renascer de água e espírito":
Aqui Jesus faz ver a Nicodemos que não é necessário renascer pela carne, nem é suficiente renascer só pelo espírito, mas é necessário nascer de novo de água e espírito, renascer também num corpo novo, não um material, mas um corpo imaterial, porque o homem completo não é espírito nem matéria, mas é espírito revestido de corpo, não mais de um corpo material como agora mas revestido de um corpo imaterial.
Aqui o autor revela que não aposta na reencarnação, base do ensinamento kardecista.

Página 83 do capítulo Expulsão de um demônio:
1. ... Demônios são entidades da natureza, de corpo invisível, cuja evolução consciente é inferior à dos homens, e são por isto chamados habitantes dos "ínferos", isto é, um nível inferior aos homens. Se os homens estão no nível mental, os demônios estão no mundo elemental.
2. Os demônios não são almas de seres humanos. ...
3. Sendo os demônios entidades de uma evolução infra-hominal, sentem eles a necessidade de se apoderarem das energias vitais do corpo humano, sobretudo do fosfato do cérebro, obsessionando assim certos homens. ...
Esta definição de demônio também é diferente da definição de Kardec, que considera os chamados "demônios" como espíritos iguais a quaisquer outros com a diferença de estarem em um estágio diferente de evolução.

Página 103 do capítulo Cristo menor e igual ao Pai:
Fez ver que ele [Jesus] é Deus, mas não é a Divindade que ele chama Pai. Deus, para ele, é uma emanação individual da Divindade Universal, mas não é a própria Divindade.
O autor aqui usa um artifício linguístico para tentar explicar a divindade e a humanidade de Jesus. Para Kardec não há esta necessidade já que declara que Jesus é espírito assim como todos nós.

Página 126 do capítulo Madalena:
Prosseguiu Jesus, em tom pausado e firme, assim como o divino juiz, no fim do mundo, quando ler os atos dos pecadores, do livro da vida eterna.
Os textos são marcados pela interpretação dogmática cristã que Kardec se esforça por reinterpretá-la.

Página 136 do capítulo A sementeira a crescer:
Isto [semente] é apenas o corpo, o esqueleto visível, mas não a alma do grão de trigo. É certo que ele tem uma alma - ou, se preferirem, um princípio vital - ...
Aqui alguns espíritas dirão que há concordância com a proposta de Kardec e outros dirão que Kardec não foi tão longe assim. Kardec chegou a afirmar que os animais também possuem uma alma, mas não um grão de trigo.

Página 140 do capítulo Erva daninha no trigal:
Todos os homens, bons e maus, têm os mesmos direitos à sua evolução, determinada pela convicção ou livre-arbítrio. Mas nem todos têm o mesmo destino final: os bons entram na vida eterna, ao passo que os maus sucumbem à morte eterna.
Esta passagem é contraditória em si mesma e está em desacordo com a proposta espírita.

Página 171 do capítulo Primeira multiplicação dos pães:
O que Jesus fez na verdade foi materializar a luz cósmica em forma e pão e de peixe. Sabemos hoje pela ciência atômica que toda a matéria é energia congelada, e a energia é luz condensada.
A explicação é simplória e nos faz refletir até que ponto devemos procurar explicação para esses supostos feitos de Jesus.

Página 175 do capítulo Jesus caminha sobre as águas:
O corpo de Jesus, por via de regra, estava sujeito às leis comuns da natureza, mas ele tinha em si o poder de isentá-lo dessas leis, todas as vezes que o quisesse; pois o legislador é senhor de suas leis.
Duas coisas: o autor coloca Jesus na posição de Deus e admite que as leis possam ser mudadas. Nem uma coisa nem outra encontramos na obra de Kardec.

Página 249 do capítulo A pérola das orações:
A finalidade da oração é crear no homem um estado de receptividade própria em face de Deus, para que lhe possa acontecer o que lhe deve acontecer.
Passagem, no mínimo, confusa já que se há algo que deve acontecer então ela vai acontecer independente de qualquer coisa. Já na proposta kardeciana a prece é para agradecer, louvar, ou pedir.

Página 269 do capítulo A figueira estéril:
Israel, instigado por seus chefes espirituais, bradou: "O seu sangue venha sobre nós e sobre nossos filhos!" E há quase vinte séculos que se está realizando esta terrível automaldição.
(...)
Segundo a profecia dos videntes, será a figueira estéril cortada e lançada ao fogo, na plenitude dos tempos que parecem estar chegando.
Há muito misticismo nestes textos e está bem longe do que Kardec propõe.

Página 271 do capítulo Festa da Dedicação do Templo:
Os judeus não tinham idéia exata do Cristo cósmico; para eles só existia o Jesus humano, como até hoje acontece em muitas sociedades teológicas e espiritualistas. Evidentemente, a pessoa humana de Jesus não era Deus. O Cristo, porém, é a primeira e mais perfeita individualização da Divindade Universal, que se pode chamar Deus: neste sentido Jesus chama "deuses" todos os homens, como emanações da Divindidade.
Novamente o autor usa um artifício linguístico para distinguir duas naturezas em Jesus.

Página 310 do capítulo Os trabalhadores da vinha:
É este o fim da parábola: mostrar a absoluta liberdade de Deus na distribuição dos seus dons gratuitos.
Nenhum homem pode merecer o céu, porque não vigoram entre o homem e Deus relações de ordem jurídica. O que Deus dá é graça imerecida, que o homem não pode causar ou merecer.
Lida com cuidado esta passagem vai contra a idéia do merecimento proposta por Kardec e também da existência das idéias inatas que o ser humano carrega em suas diversas existências.

Página 341 do capítulo Os escarnecedores da ressurreição:
Ressurreição quer dizer sobrevivência! Abraão, Isaac e Jacó eram falecidos e não se podia admitir que Deus fosse apenas Deus de cadáveres inertes; logo, aqueles patriarcas defuntos deviam viver ainda, nas regiões do mundo invisível.
Embora haja concordância com Kardec a respeito da sobrevivência do espírito, esta passagem revela mais uma vez que o autor não trabalha com a hipótese da reencarnação. Em nenhuma parte do livro ele o fez.

Página 353 do capítulo O juízo final:
Não é dessa natureza a linguagem de Jesus. Também ele, é verdade, desenrola um quadro de sublimidade épica; mas a sua dicção é suave e singela como o clarão argênteo da lua a inflitrar-se na tenebrosa vastidão do mundo, a penetrar nas fauces hiantes dos abismos...
Quê!?!

Página 359 do capítulo O lava-pés:
A traição de Judas estava prevista no plano da Redenção; mas a presciência de Deus em nada diminui a culpabilidade do homem.
Este ponto possui muita semelhança com a proposta espírita. Mas, de qualquer forma, é um ponto que merece uma maior reflexão. Se algo está previsto, tem que acontecer, então por que haveria a culpa do homem? Ou a culpa é anterior a previsão?

Página 427 do capítulo A sepultura de Jesus:
Conservou-se em boa parte até nossos dias esse sepulcro; vê-se uma porta de 1 metro e 36 centímetros de altura por 66 centímetros de largura, porta que dá acesso a uma câmara interna de 2 metros e 7 centímetros de comprimento, sobre 95 centímetros de largura.
Quanta precisão, hein!?

Página 430 do capítulo Jesus redivivo e 439 do capítulo O suborno dos guardas do sepulcro:
Muito antes do nascer do sol, o Nazareno sai do sepulcro, sem revolver a laje que obstruía a boca do mesmo, sem lesar os sigilos dos seus inimigos;
(...)
As teorias e hipóteses da "explicação natural" que têm sido forjadas em torno da ressurreição, nestes dezenove séculos, mantêm-se todas ao mesmo nível da primeira: sofrem todas da mesma tara, laboram todas no mesmo "pecado original", vivendo em pé de guerra com os ditames da lógica e as leis do bom senso.
Não sei o que o autor quis dizer com tudo isso... mas, não parece razoável achar que um corpo morto saia andando por aí.

3 comentários:

  1. Muito boa sua análise Vital. Eu li o livro e fiquei bastante confusa em alguns trechos, até perceber que o autor não era espírita.
    Mas tirando as contradições, o aspecto histórico é bem interessante.
    Risos para a 353. :)
    Abraços.

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  2. Legal, Deyse!

    Eu achei o livro bem coerente em si mesmo. E apresenta detalhes das passagens evangélicas muito interessantes.

    Eu não podia deixar passar a pérola da 353.

    Abraço!

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