segunda-feira, 4 de março de 2013

Os mortos e os vivos

Título: Os mortos e os vivos: uma introdução ao espiritismo

Autor: Reginaldo Prandi

Editora: Três Estrelas

Categoria: estudo

Edição: primeira (2012)

Proposta:
O autor se propôs em apresentar uma introdução ao espiritismo na forma de um resumo ou um apanhado geral de seus aspectos doutrinários, históricos e sociais.

Formato:
É um livro pequeno para uma leitura rápida de aproximadamente 2 a 3 horas. Ele possui uma boa divisão de capítulos, boas ilustrações e um bom projeto gráfico.

Linguagem:
Embora acadêmico, o autor utiliza uma linguagem muito clara e objetiva. O Português está impecável, revelando um cuidado especial com os textos.

Avaliação:
O livro traz um bom resumo da história do espiritismo e do movimento espírita. De certa maneira, este resumo deve ser considerado bom na medida em que retrata a visão predominante do que que seja o espiritismo. Isto é, em alguns pontos o espiritismo pode até não ser exatamente o que o autor diz ser mas é o que se sobressai para a sociedade, incluindo aí a maioria dos espíritas.

Este trabalho traz uma visão positiva do espiritismo, sobretudo das pessoas que participam do movimento espírita. Enaltece, por exemplo, o aspecto moral do espiritismo indicando com relativa frequência a importância da caridade para o espírita. Por outro lado, revela também um lado provocativo e crítico do aspecto racional no espiritismo. É sintomático disso a dedicação de poucas linhas para a importância desse aspecto dentro do movimento espírita cujos membros estão constantemente lendo e estudando obras espíritas ou não espíritas. Quando faz referência a isto, o faz de modo levemente irônico.

Também não se pode condenar o autor por certa simplificação já que a proposta é de uma introdução ao espiritismo e, portanto, deveria mesmo mostrar apenas o que está mais em evidência. Por exemplo, dedica acertadamente todo um capítulo para as práticas terapêuticas de cura como os passes e as cirurgias espirituais. Por outro lado, houve um certo excesso na valorização do episódio das irmãs Fox ao dedicar um capítulo inteiro ao assunto.

Em relação a classificação do espiritismo como religião o autor foi um pouco ambíguo ao sugerir (ou não) que o lado religioso tenha surgido com Kardec. Isto é até compreensível já que esta é uma questão polêmica entre os espíritas e, dependendo da forma com que ele se expusesse, poderia ser motivo de muitas críticas.

Enfim, no cômputo geral trata-se de um livro que oferece um bom panorama daquilo que hoje as pessoas, espíritas ou não espíritas, entendem por espiritismo.

Discussão:
Seguem abaixo algumas passagens:

Página 10 do capítulo Os vivos e os mortos, espíritos e espiritismos:
Somente a religião pode falar da existência ou não do mundo dos espíritos e de tudo o que lá acontece.
Ele pode até estar com a razão, mas houve e há muita gente falando deste mundo através de um discurso filosófico ou científico.

Página 19 do capítulo Os vivos e os mortos, espíritos e espiritismos:
Proposto por seu fundador, chamado de "o codificador", não apenas como religião, mas também como filosofia e ciência, o espiritismo se baseia na comunicação com os espíritos dos mortos e na crença da reencarnação.
Na verdade, Kardec funda o espiritismo a partir de uma proposta filosófica e científica. Talvez o autor entenda que, na prática, Kardec fundou uma religião... mas, aí é outra estória.

Página 36 do capítulo Allan Kardec e a doutrina da vida além-túmulo:
Essa doutrina [da reencarnação], comum ao hinduísmo, ao budismo e ao janaísmo, gradualmente se difundiu da Índia para o Ocidente. Rivail retomou tal ideia e a modificou drasticamente, definindo que há um objetivo maior que preside as reencarnações sucessivas e que o espírito humano somente reencarna como ser humano.
É compreensível que o autor faça algumas simplificações para atender a proposta do livro, que é a de ser um resumo. Porém, certas simplificações causam algumas pequenas imprecisões. Kardec buscou a ideia da reencarnação entre os seus contemporâneos que se desenvolvia em vários países da Europa, especialmente na França. Ela tinha origem também na cultura dos druídas. Outro ponto impreciso é que o espírito que hoje encarna em corpos humanos passou um dia por experiências em corpos não humanos.

Página 39 do capítulo Allan Kardec e a doutrina da vida além-túmulo:
As teses mais importantes do espiritismo de Allan Kardec são facilmente compreensíveis e, em grande parte, foram preservadas na constituição do que veio a ser o espiritismo no Brasil, único país em que a doutrina deu origem a uma religião completa e autônoma. Mesmo na França, o país do codificador, como Allan Kardec é chamado por muitos dos seus seguidores, o espiritismo é hoje pouco lembrado e nunca se transformou em um movimento religioso, como no Brasil.
Este parágrafo ilustra o aspecto ambíguo do autor ao estabelecer (ou não) uma origem religiosa na proposta kardecista.

Página 60 do capítulo Kardecismo, uma religião brasileira:
Mantidas por sociedades espíritas, foram surgindo centenas de escolas, hospitais, manicômios e asilos de órfãos e idosos. E também bibliotecas públicas, porque o bom espírita deve ser, antes de tudo, um estudioso.
Posso estar enganado, mas senti um tom levemente irônico neste parágrafo.

Página 63 do capítulo Kardecismo, uma religião brasileira:
Aos poucos, demonstrações desse tipo [de materializações] foram perdendo o interesse. O espiritismo já estava bastante difundido pelo país e tinha alcançado reconhecimento e legitimidade sociais significativos, sobretudo em decorrência de sua filantropia e da presença de gente de prestígio em suas fileiras. Sua ciência, no entanto, era fraca, nem de longe competindo com a ciência oficial. Sua filosofia não passava de argumentação doutrinária. A religião, contudo, crescia, ganhava forma e fama.
Humm... esse parágrafo merece uma boa reflexão. Do jeito que o autor fala o propósito das materializações seria apenas a de difundir e legitimar o espiritismo na sociedade. Uma vez alcançado estes objetivos as materializações não se fizeram mais necessárias. Será que foi isso mesmo? E quanto à ciência e à filosofia espíritas, seriam tão ruins assim?

Página 71 do capítulo Kardecismo, uma religião brasileira:
Nessas cartas [de Chico Xavier] dirigidas àqueles que choram a morte de um parente, o espírito do morto geralmente conta que está bem, em paz, manda consolo aos familiares e pede que não chorem, porque o sofrimento deles faz com que atrase sua caminhada ruma à luz. No caso de morte violenta, o espírito pode inocentar os que supostamente a provocaram e os perdoar, como também deve fazer sua família. O desencarnado trata a todos com carinho. Encoraja, conclama os entes queridos a atitudes e comportamento religiosos. Não raro se refere a algum segredo familiar, supostamente desconhecido pelo médium. Prega união, paz e aceitação diante dos golpes doloridos da vida. A missiva do morto é um alento para os familiares amados, uma lição de esperança, consolação e caridade.
Resumiu bem o que são essas cartas.

Página 82, 83 do capítulo Cura da alma, cura do corpo:
O aprimoramento da capacidade de ajudar [através da mediunidade] deve favorecer a cura de si mesmo e dos demais. Mas é comum a recomendação para o desenvolvimento da mediunidade seja recebida com temor e desconforto pelo paciente, e nem sempre é levada adiante. Não só pelo compromisso de envolvimento como agente religioso que isso implica, mas também pela insegurança provocada pela ideia de pôr-se à prova na experiência do transe. Experimentar o transe é deixar-se tomar por outra consciência, um outro eu que quer se expressar.
É... não é mesmo fácil aceitar ser médium.

Página 106 do capítulo Os espíritas na sociedade brasileira:
Pertencer a uma determinada religião, nos dias de hoje, é questão de escolha pessoal, não mais de herança social ou familiar, um legado que se deve defender para garantir a própria identidade. A religião que se professa já não é aquela na qual o indivíduo nasce, mas a que ele escolhe. A religião que alguém elege para si, agora, selecionada de uma pluralidade de credos em permanente expansão e mudança, também não é mais, necessariamente, a que seguirá amanhã.
Bem anotado!

Página 108 do capítulo Os espíritas na sociedade brasileira:
Jesus Cristo, o mais iluminado dos espíritos reencarnados na Terra, não ocupa no espiritismo o lugar de Deus filho, como no catolicismo e no protestantismo. Não faz parte da Santíssima Trindade, que é completamente estranha ao kardecismo. Por isso, católicos e evangélicos, das diferentes igrejas, não reconhecem o espiritismo como religião cristã. Historiadores e sociólogos da religião preferem incluir o espiritismo em um ramo diferente do cristianismo, entre as chamadas religiões mediúnicas. Mas a maioria dos espíritas se diz cristã, assim como os umbandistas, que veneram Jesus Cristo, identificado em Oxalá.
Tem razão o autor. Por que os espíritas se dizem cristãos se a sociedade diz que não é?

Página 109 do capítulo Os espíritas na sociedade brasileira:
Elevada escolaridade é a marca dos espíritas kardecistas. Eles pertencem a uma religião que valoriza a escola e o progresso intelectual, que às vezes se confunde com progresso espiritual. Consideram que toda sua doutrina foi e continua sendo transmitida por espíritos mais evoluídos por meio da palavra escrita, que eles usam no dia a dia da religião como meio privilegiado de comunicação com os mortos. Também dedicam parte de seu tempo de prática religiosa à leitura e ao estudo da palavra dos espíritos.
Bela provocação! "Palavra" dos espíritos!?

2 comentários: