sexta-feira, 1 de junho de 2012

Destino: Determinismo ou Livre-Arbítrio?

Título: Destino: Determinismo ou Livre-Arbítrio?

Autor: Wilson Czerski

Editora: EME

Categoria: estudo

Edição: primeira (novembro 2011)

Proposta:
Apresentar a visão espírita sobre diferentes fatos da vida relacionados ao nosso destino tendo por base a discussão sobre o determinismo e livre-arbítrio. O autor faz um apanhado filosófico e religioso em relação ao tema para embasar sua explanação do ponto de vista da doutrina espírita. E depois complementa com alguns estudos de casos.

Formato:
Tamanho grande com mais de 300 páginas que podem ser lidas em aproximadamente 10 horas. É dividido em quatro capítulos sendo que os dois primeiros apresentam a visão dos filósofos e das religiões sobre o tema, o terceiro constitui a maior parte do livro e trata da visão espírita, e o quarto apresenta alguns estudos de caso.

Linguagem:
Linguagem simples e razoavelmente clara. Há uma boa preocupação do autor em não ser repetitivo já que o tema sempre gira sobre os mesmos argumentos.

Avaliação:
É fácil reconhecer que este livro é fruto de longos anos de estudo e dedicação do autor. Seu esforço resultou num trabalho de boa qualidade, razoavelmente completo, e que merece figurar entre as melhores obras espíritas sobre o tema. O autor também procurou ser imparcial em suas argumentações e, por isso, o livro merece nosso respeito.

Por outro lado, infelizmente o autor não conseguiu se soltar o suficiente de teorias, hipóteses, ou relatos que vão contra o desenvolvimento argumentativo que ele próprio faz em boa parte da obra. É o caso, por exemplo, do confronto entre a onisciência de Deus e o nosso livre-arbítrio. Embora o autor tenha desenvolvido uma argumentação consistente em favor da existência do livre-arbítrio ele não conseguiu satisfatoriamente explicar porque entende que Deus sabe de tudo o que vai acontecer.

Outro exemplo é o do conceito do acaso onde o autor explora corretamente a sua definição apresentando até mesmo um ensaio sobre o Efeito Borboleta, mas ao mesmo tempo insiste em aceitar ingenuamente casos de expiações coletivas. Talvez não seja propriamente ingenuidade, mas uma espécie de posicionamento aberto a qualquer hipótese que se apresente. Isto é, se não existe uma lógica definitiva que descarte determinada hipótese, mesmo que frágil, então ela vale tanto quanto outra mais consistente e racional.

Como resultado desta postura o autor geralmente se vale de verbos que indicam possibilidade e não certezas. É até uma forma prudente de levar adiante uma argumentação, mas como resultado final o estudo fica apenas próximo do campo especulativo. Da mesma forma o autor valoriza demais este verbos em textos de terceiros, como os de Kardec, sugerindo que as proposições retiradas destes textos poderiam ser diferentes. Isto é, o autor transfere seu posicionamento ambíguo para outros autores.

De qualquer forma, é importante frisar que esta ambiguidade não é motivo para desmerecimento do autor e de sua obra. Ninguém tem obrigação de se posicionar firmemente sobre um determinado ponto, sobretudo se este ponto é motivo de tradicionais e inconclusivas discussões ao longo de séculos.

Discussão:
Seguem abaixo algumas passagens:

Página 55 do subcapítulo Russel, Bertrand Arthur William (1872 - 1970):
Porém, paralelamente podemos intuir que esta maior compreensão de seu papel no Universo implica na busca de uma espécie de alinhamento de sua vontade com a de Deus. Há, por certo, um determinismo marcado por aquela inexorável necessidade de progresso que impele o ser a escolhas cada vez mais compatíveis com a vontade do Criador. É possível imaginar, assim, que um dia, o espírito altamente evoluído, na prática, abdique quase que totalmente de seu direito de escolha, unicamente por compreender e aceitar que cumprindo com os desígnios divinos, não poderá errar nunca e jamais comprometerá a sua felicidade.
Faz sentido.

Página 60 do capítulo A questão do livre-arbítrio para as religiões:
Nossas veredas espirituais estariam bem mais aplainadas se prestássemos mais atenção à nossa volta e tirássemos proveito das experiências alheias. O próprio Espiritismo deve dispensar cuidados para não incorrer nos mesmos equívocos cometidos pela maior parte destas religiões, engessando a razão, paralisando a vontade e cristalizando ideias.
Bom conselho.

Página 87 do subcapítulo Definições: fatalidade, destino e livre-arbítrio:
Já sobre o acaso é importante percebermos que ele não significa apenas casualidade, fatos aleatórios ou acidentais, mas também os efeitos determinados por um conjunto de pequenas causas sem conexão entre si, mas não fortuitas, visto que obedecem a certas leis, embora mal conhecidas ou totalmente ignoradas.
A definição é interessante e parece correta, mas o autor insiste em não admitir a existência do acaso em outros pontos do livro.

Página 103 do subcapítulo A origem do mal. O sofrimento.:
Podemos afirmar que em cada estágio predomina uma determinada faculdade sem que, no entanto, as outras adquiridas ao longo dos milênios, deixem de existir. O homem atual carrega em si algumas aptidões do reino mineral, especialmente se encarnado, pela posse do corpo material como o magnetismo ou fluido vital.
Será que nós, enquanto seres inteligentes, carregamos mesmo alguma "aptidão" do reino mineral? Segundo Kardec plantas e minerais não são acompanhados do princípio inteligente.

Página 115 do subcapítulo Provas e expiações escolhidas e compulsórias. Determinismo social.:
Ainda que lhe seja dada a possibilidade de, pelo livre-arbítrio, efetuar escolhas quanto ao mapa genético baseado na herança genética dos pais que lhe fornecerá a configuração somática geral e mesmo detalhes em relação às condições de saúde e outras, não há como fugir das contingências de seres humanos que vivem sobre este planeta.
Tenho sérias dúvidas quanto a esta possibilidade do espírito "efetuar escolhas quanto ao mapa genético". Se isto fosse realmente possível então deveria ser natural encontrar divergências significativas quanto as probabilidades genéticas propostas por Mendel.

Página 116 do subcapítulo Provas e expiações escolhidas e compulsórias. Determinismo social.:
Embora a decisão de reencarnar seja do espírito, exceto nas compulsórias, e participe em grande parte das escolhas quanto ao momento em que isso se dará, aos pais, local, união conjugal e profissão que poderá vir ocupar, sempre estará sujeito ao ambiente social. Temos aí presente o determinismo econômico (da cidade, do país e do mundo), cultural, social, tecnológico, político, climático e até religioso e moral.
Proposição bem mais razoável.

Página 117 do subcapítulo Provas e expiações escolhidas e compulsórias. Determinismo social.:
De outras ocasiões, as precauções foram tomadas e mesmo assim pessoas de bem são surpreendidas e encontram a morte ou a paraplegia, de si mesmas, familiares ou amigos. Não foi uma casualidade. Alguém deliberou provocar atos que indiretamente atingiram supostos inocentes. Então exerceu o livre-arbítrio em detrimento de outrem. As vítimas, neste acaso, poderão ter ou não razões específicas para passar por aquela experiência. Repetindo: pode ser uma expiação como pode também não guardar qualquer relação com a lei de causa e efeito, servindo, porém, sempre de provação.
Este parágrafo simboliza um pouco da confusão em torno do tema. É dito que não foi uma casualidade, mas também se diz que foi acaso. É dito que não são inocentes, mas também se diz que pode não ser uma expiação.

Página 122 do subcapítulo Ação e reação ou causa e efeito?:
Muitos utilizam a expressão "Ação e Reação". Não concordamos que seja o mais apropriado. Esta imediatamente nos remete à terceira lei de Newton para qual uma ação determina uma reação de mesma direção e intensidade e sentido contrário.
Também acho.

Página 129 do subcapítulo Ação e reação ou causa e efeito?:
Deste modo, o planejamento reencarnatório realizado no plano extrafísico é, na feliz expressão de alguém, apenas um protocolo de intenções.
Sábio este alguém.

Página 137 do subcapítulo Como, onde e quando expiamos:
Não raro, os próprios espíritas têm dificuldades para interpretar corretamente este processo, cismando em relação ao tipo de atos cometidos no passado que deram juz a certos acontecimentos do presente. Buscam estabelecer conexões radicais entre causas e efeitos, prejudicando o seu próprio autoconhecimento e, às vezes, induzindo a perigosas ilações referentes às outras pessoas, tomando-as por autoras de delitos ou abusos graves como assassinato, suicídio, mutilações, estupro.
É verdade.

Página 163 do subcapítulo O fruto maduro. O destino é feito de tendências e probabilidades.:
Sabemos que Deus tudo pode e tudo sabe, abrangendo presente, passado e futuro porque para Ele o tempo não existe. Em certa medida e condições este poder também é dado ao homem. Podemos argumentar que Deus, pelo fato de saber o que vai nos suceder, não significa que vai interferir em nossa vida. O livre-arbítrio humano está preservado. E isto é verdadeiro. Acrescente-se que Deus apenas pode conhecer o futuro e que os detalhes pessoais de cada um são tão pouco importantes que Ele nem se ocupa deles.
Boa tentativa de solucionar o persistente impasse filosófico, mas não foi desta vez.

Página 191 do subcapítulo Influência dos Espíritos. A prece. Obsessão.:
As obsessões sempre surgem quando apresentamos alguma vulnerabilidade moral, mas, ao contrário do que muita gente pensa, nem sempre estão vinculadas à lei de causa e efeito.
Certo.

Página 193 do subcapítulo Influência dos Espíritos. A prece. Obsessão.:
Para o físico Carlos de Brito Imbassahy a 'excelsa misericórdia divina' não existe porque tudo obedece a leis exatas, independentes de 'vontades'. Respeitável opinião, mas não concordamos.
Já eu, concordo.

Página 208 do subcapítulo A interferência da TVP, da engenharia genética e da mediunidade curativa no destino e no carma:
Raul Teixeira (Revista Harmonia, maio/2000) pôe-se a favor da engenharia genética por impedir ou consertar os fenômenos teratológicos em indivíduos que teriam corpos físicos monstruosos ou deficiências graves, desde que não tivessem mais necessidade de reencarnar com essas anomalias. Mas não podemos conceber que sem necessidade expiatória alguém venha a reencarnar nestas condições. Do contrário seria admitir a presença do acaso, caracterizando um acidente biológico e ausência da justiça divina.
Como é possível saber se há necessidade de encarnar com a anomalia? Se formos condicionar tudo o que fazemos a estas necessidades então podemos fechar nossos hospitais e universidades.

Página 211 do subcapítulo A interferência da TVP, da engenharia genética e da mediunidade curativa no destino e no carma:
Outro aspecto interessante é o que associa certas doenças às condições sociais de cada lugar, entre elas as infectocontagiosas ou consequentes à desnutrição. Exemplo clássico é abordado na obra A CEPA e a atualização do Espiritismo (pág. 131) quando se refere à hanseníase. Em oposição à tese da maioria dos espíritas que veem também aí uma relação direta entre causa e efeito espiritual, Jaci Regis, autor do tópico, opina sobre a prevalência do fator socioeconômico que faz com que em países desenvolvidos a doença esteja erradicada, no entanto, eles não são muito diferentes dos demais quanto às condutas morais de seus habitantes.
Entretanto, poderíamos arguir que nestes países morre-se mais de outras doenças, algumas diretamente ligadas aos abusos da saúde, como a ingestão excessiva de gorduras, ou certos tipos de cânceres. Além do mais, temos que considerar a migração dos espíritos entre uma encarnação e outra. Se o indivíduo é intimado ao reajuste ou pagamento da dívida moral de uma maneira específica, o reencarnante procurará um lugar que possibilite esta experiência.
Mas, o Jaci não deixa de ter razão.

Página 215 do subcapítulo Homossexualidade:
Importa, para finalizar, dizer que se o indivíduo vivenciando este tipo de experiência [homossexual], não aprender a controlar seus impulsos, canalizando a poderosa energia sexual para fins mais elevados como as artes, para o campo das ideias na filosofia, religião ou ciência, no envolvimento com a prática do mais profundo humanismo, e deixar-se arrastar para a repetição das práticas antigas, outras decepções ficarão à espreita no horizonte. Novas transgressões às leis divinas, novas dívidas e nova necessidade de reajuste. É a lei.
Ai Jesus... quando os espíritas entenderão que o homossexual pode viver sua sexualidade assim como o heterossexual pode?

Página 215 do subcapítulo As diferenças raciais:
Não pretendemos defender Kardec ou os Espíritos que se manifestaram a respeito, porém cabe uma ou duas ressalvas. As citações mais controvertidas estão na Revista Espírita como veremos a seguir.
Na verdade, a mais controvertida está em Obras Póstumas, no artigo A Teoria da Beleza.

Páginas 220 e 221 do subcapítulo A fascinante transição chamada morte. A hora. Antecipações.:
(...) Kardec insiste que "Quer chegue a morte por um flagelo ou por uma causa ordinária, não se pode escapar a ela quando soa a hora da partida...". Mas apesar disso, possuímos fortes argumentos para suspeitar de que não devemos levar isso ao pé da letra. Primeiro: algumas colocações da própria Codificação. Em O que é o Espiritismo (Terceiro Diálogo, pág. 87), encontramos: "Não podendo conseguir um desenvolvimento completo numa única existência, quase sempre abreviada por causas acidentais...". Parece, então, que de certa forma, Kardec foi contraditório, visto que desde a primeira edição do LE, diferente em algumas questões e tópicos e com menor número delas, já se enfatizava a fatalidade da hora da morte.
Boa e correta observação.

Página 224 do subcapítulo A fascinante transição chamada morte. A hora. Antecipações.:
Mas mesmo em condição de igualdade acreditamos que certos acidentes - senão a maioria - não estavam previstos. Ocorrem e causam a morte prematura de pessoas sem qualquer relação com a lei de causa e efeito.
Certo.

Página 234 do subcapítulo Os gêneros de morte:
Ele afirma que o ataque [dos insetos] foi casual, no que nos permitimos discordar, visto que ele próprio admite que o fator de atração dos insetos sobre ele e mais ninguém teria sido o seu odor corporal. Mas esta característica pessoal decorrente do sistema endócrino e a própria suscetibilidade alérgica não eram fortuitas. Provavelmente já eram constantes de seu mapa genético expressando planejamento pré-reencarnatório de conformidade com experiências necessárias pelas quais ele deveria passar.
Humm... é preciso muito boa vontade para aceitar esta hipótese do planejamento com o odor corporal. Mas o estranho mesmo é o autor não se decidir quanto a predeterminação de eventos similares a este.

Páginas 242 e 243 do subcapítulo O Titanic. O tsunami da Ásia. As torres gêmeas e o 11 de setembro.:
De fato, as mortes [no naufrágio do Titanic] poderiam ser evitadas, mas se não devemos radicalizar o ensinamento de que todos os que morrem em circunstâncias semelhantes são ali reunidos para este fim por contingência da lei de causa e efeito, não menos devemos resvalar para o extremo oposto e achar que nenhum deles é atraído para tal situação em cumprimento de um destino marcado por dura prova ou expiação.
Mas o problema não está só na logística de reunir um conjunto de pessoas selecionadas bem antecipadamente. O problema maior está na presciência de que o Titanic iria afundar. A partir de que momento os espíritos responsáveis por reunir este conjunto de pessoas ficou sabendo que o navio iria afundar? Anos antes? Dias antes? Segundos antes?

Página 248 do subcapítulo As "coincidências" que salvam e as que matam. O holocausto.:
Por fim, na questão da logística levantada por Richard Simonetti, claro que é difícil imaginar a complexidade da operação para reunir quase 300 mil pessoas em alguns poucos pontos próximos, mas há que se considerar que se nós encarnados conseguimos reunir até milhões de pessoas atraídos por um show artístico ou peregrinação religiosa, por que os trabalhadores desencarnados não poderiam fazer o mesmo haja vista que seu poder é maior que o nosso e há motivação inconsciente dos encarnados para lá se dirigir e cumpri com o objetivo traçado?
O raciocínio está equivocado. O problema não está em reunir qualquer conjunto de pessoas, mas em reunir um conjunto de pessoas que foram previamente selecionadas há tempos atrás.

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