quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O diabo Riu

Título: O diabo Riu - A luta entre o bem e o mal

Autor: Antenor Zago

Editora: Mythos

Categoria: crônicas

Edição: primeira (2009)

Proposta:
O autor propõe uma reflexão sobre as causas das misérias humanas através de um diálogo curioso e divertido entre ele e o suposto diabo. Procura desmistificar velhas idéias e, ao mesmo tempo, oferece novas baseadas na interpretação da doutrina espírita.

Formato:
O livro possui um tamanho médio contendo cerca de 200 páginas distribuídas em pouco mais de 30 capítulos. Os textos somam aproximadamente umas 40 mil palavras que podem ser lidas em umas 4 horas.

Linguagem:
A linguagem do autor é simples e clara. Seus diálogos são divertidos e coloquiais. Há espaço também para algumas poesias que deixam a leitura mais suave. No final de cada capítulo aparecem uma citação, um provérbio ou um ditado popular que contribuem para a reflexão das idéias transmitidas.

Avaliação:
A característica principal desta obra está na capacidade de envolver o leitor com uma leitura interessante e prazerosa. O seu aspecto lúdico e imaginário que se baseia na conversa com o diabo traz novas possibilidades ou novos olhares para as velhas idéias que teimam em permanecer em nossas mentes. Tem a capacidade importante de despertar para a necessidade da reflexão.

Para o espírita experimentado o livro não traz grandes novidades em termos de conceitos espíritas. Mas, relembra que ainda existe muita confusão em torno deles. E, assim, faz repensar a necessidade de esclarecê-los. Por exemplo, o autor aborda as múltiplas existências do espírito, a vida e obra de Jesus, o conceito de Deus, e a origem do Universo.

O autor traz também interessantes e corretos pontos de vista sobre as misérias humanas como o holocausto, a escravidão no Brasil, as cruzadas, a destruição de Canudos. Em comum, estes espisódios são lembrados pela responsabilidade que a humanidade tem sobre eles.

Há nos textos um combate constante à postura religiosa diante de velhas idéias ou mesmo dogmas, como a virgindade de Maria, a santíssima trindade, as penas eternas, ou a salvação pela fé. Ainda assim, este combate se faz de forma bem humorada e criativa.

Denuncia também, embora de forma sutil, o ufanismo espírita com relação a "pátria do Evangelho" lembrando, através de exemplos, que temos muito a avançar em termos morais e sociais.

É uma obra corajosa pois pode até ser mal interpretada e, por isso, condenada. De qualquer forma, é uma excelente oportunidade de reciclar idéias e reavaliar argumentações em torno da questão religiosa do Espiritismo.

Discussão:
Embora o autor tenha se esforçado para debitar as misérias humanas na conta dos encarnados e não na conta do diabo, e quando apresenta a hipótese de que os desencarnados influenciam os pensamentos dos encarnados, aí alguém poderia "levantar a mão" e dizer que esta influência seria equivalente a uma hipotética influência do diabo. De fato, esta possível capacidade de influenciar dos espíritos permite ainda a compreensão de que não seríamos totalmente responsáveis pelo mal que praticamos.

Aparentemente, o autor se perde um pouco nesta tarefa de explicar que somos responsáveis pelo mal e ao mesmo tempo podemos ser influenciados por terceiros. Talvez, ficaria mais claro se tivesse batido mais forte na tecla da explicação do livre arbítrio que todos temos e deixasse algumas expressões de lado como, "forças do mal" (página 98).

O diabo da estória ri de tudo e se mostra muito crítico (no bom sentido da palavra) com os dogmas da Igreja, mas parece ser meio complacente com algumas outras teorias "divinas". Talvez se olhasse para o próprio umbigo quem sabe ele riria delas também. Em especial, traz ao longo do livro a idéia da vinda dos capelinos para a Terra e, sem entrar no mérito da veracidade desta informação, o autor poderia imaginar que da mesma forma que um diabo ri da estória de Adão e Eva, um outro poderia rir também da estória de Capela.

Para explicar que o homem é o responsável de seus atos o autor levanta a idéia de que todo efeito tem uma causa. Porém, aparentemente erra na dose ao atribuir indiretamente a Kardec a idéia de que "a cada ação, corresponde uma reação igual e contrária" (página 142). Em uma interpretação mais global da obra de Kardec entende-se que existem efeitos que não necessariamente são iguais às causas (e em sentido contrário).

Esta visão da "ação e reação" permite ao autor interpretar a passagem evangélica "se a tua mão te escandalizar, corta-a" de forma distinta da de Kardec no Evangelho Segundo o Espíritismo. O autor interpreta esta passagem como a hipótese do espírito reencarnar mutilado e até mesmo presidindo a sua deformação física (página 157). Já Kardec no item 17 do capítulo VIII em ESE interpreta a passagem como: "arrancar do coração todo sentimento impuro e toda tendência viciosa". Bem diferente!

Um comentário:

  1. A obra é no mínimo corajosa. Valeu pra caramba.

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